sábado, 28 de maio de 2011

O corpo doía a cada passo dado na escadaria cinza. Ela me esperava com o cabelo mais vermelho do que o usual e um sorriso entreaberto, numa sintonia leve com os olhos amendoados.
- Cê tá bem?, perguntou.
- Sim, apesar de. E contei da peste, do corpo dolorido, da estafa denunciada pelas unhas roídas.
- É, também não tô assim, tão bem.
- Também a peste?, perguntei.
- Não.
E me contou da perda, dos olhos maternos agora cerrados, dos sete dias passados, da chefe tê-la liberado mais cedo para ir à missa. Seus olhos calaram.
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- Viu os balões no céu?
- Alguns. Uns pinguizinhos de cor nesse azulzão, né?
(mas seus olhos tão cinzas)
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- Não tá com frio, gata?
- Um pouco., respondi encolhendo num súbito as pernas geladas.
- Eu vi. Tu tem que te agasalhar, botar mais uma roupinha. Assim a peste não te deixa, né?
Sorri.
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(Duas estranhas perdidas na incompreensão da falta)
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Olhou-me com doçura. Seus olhos pareciam menos seus.
- Me desculpa. Coisa meio de mãe falar isso, acho.


terça-feira, 3 de maio de 2011

é hora de ir e a impressão da tua pele risca as paredes amanhecidas. recuso como quem respira. espalho as roupas no chão e te sinto. as sinuosidades do teu corpo não me deixam partir - por mais que parta

eu fico, eu fico.

falta de léxico

a tarde disfarça o indizível
no azul a grama me formiga
suposições.

braços abraçam os joelhos
recosto os cabelos no vento
(e penso)

vontade imprecisa
da tua pele presa
no meu pensamento.