terça-feira, 20 de dezembro de 2011

na areia do meu sonho
caiu água dos olho
duma moça triste

pingô e pingô
até enxarcar de azul
até a seca sentir
até salgar os pés
e meu sonho
se dormir.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

relíquia

o jeito que mexia no cabelo
tinha algo de lampião em noite escura
colorindo de amarelo a solidão.
tão bonito,
tão bonita e triste.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

inverno

sem floreios
resta o gosto do teu corpo




em mim.

sábado, 4 de junho de 2011

agarro entre os dentes minhas feridas
partidas

não sabes que me feres quando te feres e tua úlcera é minha ânsia que renasce a cada não morto em tua boca?

em vão confessam
meus murros tristes
de voz.

sábado, 28 de maio de 2011

O corpo doía a cada passo dado na escadaria cinza. Ela me esperava com o cabelo mais vermelho do que o usual e um sorriso entreaberto, numa sintonia leve com os olhos amendoados.
- Cê tá bem?, perguntou.
- Sim, apesar de. E contei da peste, do corpo dolorido, da estafa denunciada pelas unhas roídas.
- É, também não tô assim, tão bem.
- Também a peste?, perguntei.
- Não.
E me contou da perda, dos olhos maternos agora cerrados, dos sete dias passados, da chefe tê-la liberado mais cedo para ir à missa. Seus olhos calaram.
.
.
.
- Viu os balões no céu?
- Alguns. Uns pinguizinhos de cor nesse azulzão, né?
(mas seus olhos tão cinzas)
.
.
.
- Não tá com frio, gata?
- Um pouco., respondi encolhendo num súbito as pernas geladas.
- Eu vi. Tu tem que te agasalhar, botar mais uma roupinha. Assim a peste não te deixa, né?
Sorri.
.
(Duas estranhas perdidas na incompreensão da falta)
.
Olhou-me com doçura. Seus olhos pareciam menos seus.
- Me desculpa. Coisa meio de mãe falar isso, acho.


terça-feira, 3 de maio de 2011

é hora de ir e a impressão da tua pele risca as paredes amanhecidas. recuso como quem respira. espalho as roupas no chão e te sinto. as sinuosidades do teu corpo não me deixam partir - por mais que parta

eu fico, eu fico.

falta de léxico

a tarde disfarça o indizível
no azul a grama me formiga
suposições.

braços abraçam os joelhos
recosto os cabelos no vento
(e penso)

vontade imprecisa
da tua pele presa
no meu pensamento.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Não pertenço ao ventre que me pariu
ou ao jugo dos olhos teus.
Do passado, pouco sou
uma pedra nas botas do senhor.

Não sou da servidão dócil
do fogão seis bocas
dos bons modos e unhas feitas.
Não sou da máquina que amortece
e diz trabalha,
não seja.

Não pertenço à fragilidade imposta
à fé castradora
ao amor desatinado
onde o espartilho patriarcal me encilhou.

Do homem que amo
do corpo que tenho
das vidas que vivo
deles não sou.

Em tudo que existe, sigo assim
apenas mulher de mim.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ah, não me fites,
que das ausências sou farta.
Prefiro o ar que nos separa
à umidez da tua boca.

Dá-me a distância
que a recorto, mastigo, faço abrigo
destas noites ainda quentes
pela presença da tua partida.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Com a pressa dos esquecidos
ele fareja
meus sapatos
cansados.

penso no percurso
da tarde
de afeto
do cão
que saca
o que sinto

com todo o sentimento do mundo,
fixo meus olhos nos seus

olhos desdenhosos
que me enchiam de certeza

nunca, para qualquer ser,
fui tão desimportante.