terça-feira, 19 de outubro de 2010

antes

Viu naqueles cachos um bom lugar para estocar os sentimentos no inverno. Inconformada com a distração do ambiente, decidiu caminhar a seu encontro. Munida de intenções furtacor, desviou os olhos da cerveja e da luz fugidia para encarar os seus. Quis dizer

[Oi? Tenho uma flor no cabelo e um livro do Dylan, além de revistas que assinei e não li e alguns indícios de uma vida serena entre o abre-fecha das pálpebras, mas isso realmente não interessa agora, sublinho bem com os dentes o agora, porque os caquis ainda não estão maduros e a música está muito alta e]
Mas sorriu
e disse
.
.
.
.
.

O que se tornaram gritou mais alto do que a música.
Então vieram os cafés, a companhia serena, a ternura de pensar como verbo transitivo, pessoa tão definida, sujeitos de si e do mundo.

Num súbito, ela aventou que tudo que nele a fizera suspirar poderia não passar de um protocolo-para-enternecer-moças-de-flor-no-cabelo. Lembrou-se de cada palavrinha e esmiuçou todo o sentido que nelas podia encontrar, que nem quando criança, quando escolhia o feijão para o almoço de domingo.
Suspirou e tentou não assumir o papel de burocrata sentimental, não ser a moça-que-perdeu-a-esperança-no-modo-humano-de-amar-e-agora-prefere-simplesmente-desacreditar. Assustou-se. Era como se estivesse cambaleando com seus sacos de sentimento. Sim, precisava estocá-los, mas também dividí-los. Dividir-se, soava tão difícil. Ainda não parecia prudente entregar-se na imaginação do que viria.



Ainda.