segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

pela janela do ônibus
vejo
não
sinto
um girassol cabisbaixo
no asfalto ardente de dezembro.

com os galhos apoiados na maternidade de uma parede antiga,
parecia desculpar-se pela miséria do mundo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Quando teimo em pensar que sou, vejo que só me sei através. Através dos nãos que me disseram, das mãos sutilmente esquivadas e do riso farto daqueles que amo. Do olhar desgarrado por conta da intimidade ou da angústia, do sorriso despercebido e do alento de um dia bom. Só sei ser pelos tomates cartesianamente picados, pelo sorriso descompromissado, pelas taças brindosas, xícaras vazias e pela ternura que a madrugada abrigou. Os livros que não me leram, o domingo que não quis chover e as memórias natimortas, são eles que me contornam (mais do que aquilo que concretamente existe).

Os lugares onde não estou: são eles que me definem.


sábado, 4 de dezembro de 2010

pedido

não me anoiteça
não
podemos (.)
ainda
há tanto
tempo.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tudo cabe em poesia

o rugir deste ônibus
as unhas roídas
as urgências da buzina
os músculos tonificados pelas paradas bruscas
o trocado suado
o crachá esquecido na camisa
os sonhos embaçados pelo cansaço

mal sabem
(tudo cabe).

presos em meus versos tortos
rimam com as circunstâncias
eles,
prólogos do meu dia.

das canções perdidas


amanheço na relutância
não, não aceito
o que os olhos apontam
e os engasgos silenciam.
tens esse jeito torto de mirar o horizonte
- respira pra dentro e te conforma -
fatalidade besta da vida
que nasceu e floresce contigo.

o que fazes?
não é hora. deleta, sufoca.
borrando as linhas azuis deste papel
meu grito
me goza,
me cala.



domingo, 28 de novembro de 2010

O imponderável escapa por entre os vãos de meus dedos
inunda-me
faz o dia serenar.

sou terra encharcada de perspectivas e suposições vãs.

ora agarro-me às raízes
(prece tímida pelo porvir)

ora as arranco feito bicho vadio
(alheio às previsões)


.
.
.
quero ser no mundo por nele estar.





sábado, 27 de novembro de 2010

O dia se pôs em meu corpo
denunciando a ânsia pelo teu toque.
Atravessa-me com tua boca
risca-me as suposições
vem que minha escrita é urgência

Sussurro

(quero que me sintas como quem respira)

Sem ti
em mim
te procuro.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

o que há em mim,
suponho.

irmã das coisas fugidias

sabe quando o chá está no final, então se segura a xícara quase como se fizesse um pedido? pretensão nenhuma entre as mãos, nenhuma mesmo, tampouco sinceridade afetada. só permanecer ali, onde não se pode beber a longos goles, mas ainda é impossível abandonar o gosto?


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

pra dentro

Não era o mesmo verde e nem a mesma tarde, apesar de as folhas secas parecerem iguais àquelas que eu enxergava pelo vão do teu ombro quando respiravas fundo e o teu peito crescia e eu crescia com ele. Talvez o mesmo sol, que nos deixava com aquela vontade besta de dizer que é primavera, como se os ipês carregados de provocações e orvalho não antecipassem nossa intenção.
Acho que sabíamos. Por isso os silêncios, para deixar movimentar-se a engrenagem miúda daquela tarde: folhas secas, sentidos falidos, ficções suaves, solidão falada.
Teu peito arfante ditava o compasso. Recostada nele, descompassei-me.
Agora agarro este papel com os punhos fechados na tentativa de retomar o equilíbrio. Ah, que tolice.
A tarde é outra e eu, crescida em ti, em mim não estou.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ainda

Te quero como se querem as coisas fugidias
amadas
porque não possuídas
e minhas
porque não as exijo

as mãos revolvem os cabelos
minha boca entreaberta denuncia tua ausência
(não penso)

a lembrança do toque
dá o compasso do tempo
que transborda
em meu corpo trêmulo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

antes

Viu naqueles cachos um bom lugar para estocar os sentimentos no inverno. Inconformada com a distração do ambiente, decidiu caminhar a seu encontro. Munida de intenções furtacor, desviou os olhos da cerveja e da luz fugidia para encarar os seus. Quis dizer

[Oi? Tenho uma flor no cabelo e um livro do Dylan, além de revistas que assinei e não li e alguns indícios de uma vida serena entre o abre-fecha das pálpebras, mas isso realmente não interessa agora, sublinho bem com os dentes o agora, porque os caquis ainda não estão maduros e a música está muito alta e]
Mas sorriu
e disse
.
.
.
.
.

O que se tornaram gritou mais alto do que a música.
Então vieram os cafés, a companhia serena, a ternura de pensar como verbo transitivo, pessoa tão definida, sujeitos de si e do mundo.

Num súbito, ela aventou que tudo que nele a fizera suspirar poderia não passar de um protocolo-para-enternecer-moças-de-flor-no-cabelo. Lembrou-se de cada palavrinha e esmiuçou todo o sentido que nelas podia encontrar, que nem quando criança, quando escolhia o feijão para o almoço de domingo.
Suspirou e tentou não assumir o papel de burocrata sentimental, não ser a moça-que-perdeu-a-esperança-no-modo-humano-de-amar-e-agora-prefere-simplesmente-desacreditar. Assustou-se. Era como se estivesse cambaleando com seus sacos de sentimento. Sim, precisava estocá-los, mas também dividí-los. Dividir-se, soava tão difícil. Ainda não parecia prudente entregar-se na imaginação do que viria.



Ainda.

segunda-feira, 22 de março de 2010

start spreading the news

Estive em catorze rodoviárias e ganhei um panfleto do companheiro de viagem. Só Jesus salva, em letras garrafais e papel sulfite rosa. Li ao som do melhor da música popular brasileira enquanto o motorista falava ao telefone. Ando me lembrando de músicas bregas quando está para chover. Preferia ter dor nas juntas do que não conseguir tirar o Lobão da cabeça. Meu avô pensa que tirei direito. A avó continua com o sorriso e a cuca de queijo mais doces do mundo. Experimentei a terra vermelha, os pés descalços não gostaram. Bandagens e nebacetins e água vegeto-mineral e anti-inflamatórios e ih-isso-tá-feio-vai-consultar-um-médico,mocinha, mas páro por aqui para não enojar vocês, queridos leitores do meu brógui quase fantasmático. Al al al não vou mais pra Portugal, quem sabe case e tenha uma filha Joana e more em Augusto Pestana. Não. Tenho um problema de pesquisa e descobri que ouvir Beirut é uma ótima maneira de procrastinar. Ando passando as madrugadas com Juvenal Antena, Marconi Ferraço e Seu Gonçalo. Simpatizo com o primeiro, me divorciaria do segundo e passaria a vida com o terceiro. Ah, se eu fosse marinheiro. Estou meio sem paciência e com uma bolsa-carteira nova, cheia de amor purinho português. :) . Eis que sou aluna ouvinte-especial do outro mestradito amigo, apesar de ainda não entender as diferenças entre o positivismo de Comte e uma perspectiva não-popperiana da sociologia. Cara de paisagem e caneta esferográfica nova sempre ajudam. Ainda vou comprar um sapato vermelho nesse inverno, pra dançar que nem no conto do Andersen. Se o pé colaborar, claro. A saudade anda docinha, docinha. Acho que tou prazo e passagem comprada pra decidir a vida, ao menos pro lado de fora. Ganhei um cactus que tem flores, flo-res, já viu? Rosinhas vermelhas, lindas. Espero que sejam mais resistentes que meu famigerado bonsai, porque tudo que é sólido desmancha no ar. Bem assim, ó. Feito notícia no vento. Viu? Já foi. Uhum.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

indigestão

-Tá, mas tem alguém solteira aqui?

O indicador direito pairou verticalmente, altivo, enquanto a outra mão se ocupava em desembrulhar o sonho de valsa. Barulho do árduo trabalho da mão esquerda no papel rosa. Silêncio suficiente para perceber aqueles dezoito olhos femininos, cheios de complacência, pousando sobre mim.
Mordo o sonho de uma vez e coloco as duas mãos sobre os joelhos, como forma de fingir algum bom-mocismo. Funciona. Rapidamente saio de cena para surgirem elas, as panelas, como protagonistas da conversa. Alívio.

- Ah é? Mas pediu um conjunto só? Da Tramontina são as melhores, pena que tem convidado sovina.
Elassãotãonovas
- Tu casa em novembro?Ah, antes de se formar, claro.
Nemterminaramafaculdade
- Dois carros e um apartamento ele tem!
Umasguriastãoboas
- Ah, ter filho sozinha é muito egoísmo. Tem que ser fruto de um amor.
simonedebeauvoirmeacuda
- Sei que ele traiu todas as namoradas até hoje, mas comigo ele é bem diferente.
Apenasvinteepoucosanos
- Sair sem ele, que jeito? É morte certa. Mas sou mais caseira mesmo.
Quemsabemaisumsonhopraqueeunãoescute

O doce pára na goela. Vomito.
Porque eu acho um absurdo quando um homem me pergunta ‘oqueumamulhercomotutáfazendosozinhaaqui’ como se ‘umamulhercomoeu’ não pudesse estar sozinha e eu não acredito que isso tudo possa ir além de algumas longas monogamias consecutivas de bom sexo e talvez filhos ou bonsais que morrerão no outono quando o fastio ocupar o lugar onde antes vocês estavam, é, porque vocês vão estar onde a solidão é insuportável e não se sabe mais de si a não ser através do outro, como se trocassem o sabor do bombom pelo ato de tirar a embalagem e cultuassem aquele papel rosa cafona e brilhoso enquanto o chocolate apodrece.


___

Recalcada, devem ter pensado.
(uma recalcada de bombonières cheias e armários vazios, bem verdade)
:)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

antes que seja



- É só fechar os olhos pra eu dormir.
- Ah, é?
- Aham. só fechar. bem assim, numa piscadela comprida.
- ahn. e por que não fecha?

- Ainda é tarde.