quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Encontrando Caio

Gosto da seção Idéias, publicada todo final de semana no caderno MIX do Diário de Santa Maria. Claro, não são todos os temas que me agradam, mas respeito o esforço de dar duas páginas para os leitores falarem sobre temas interessantes, sejam eles a obra de Iberê Camargo (como foi o caso da última edição) ou um sonho do autor com um escritor gaúcho pelas ruas de Paris, motivo pelo qual escrevo aqui.
O autor, no caso, é Guilherme Passamani, professor do curso de Ciências Sociais da UFSM e (me atrevo) criatura de um texto gentil. O escritor do sonho é Caio Fernando
Abreu, santiaguense e (me atrevo novamente) de todo e nenhum lugar deste mundo.

No texto, Guilherme relata um encontro com Caio pelas ruas da cidade-luz numa certa manhã de fevereiro. O trajeto dos dois, entre Notre Dame à Pont Alexandre 3º, não é descrito de maneira detalhista, com a precisão dos aborrecidos, mas sim com um tom suave, como se a leitura acompanhasse o ritmo da caminhada. Os lugares pelos quais os dois flanam tornam-se mais próximos com as menções de Guilherme às obras de Caio. O leitor pode não conhecer os caminhos da estação Trocadero ou ter avistado os imponentes 318 metros da Torre Eiffel. Se tiver lido Pela Noite e conhecido Pérsio e Santiago, poderá talvez entender a sensação de estar lá. Referências suspirosas para aqueles que admiram Estranhos Estrangeiros, entre os outros livros do autor.
A despeito de tudo isso, acho que o mais bonito do texto não está nas palavras, mas no tom: consegue honrar a obra de Caio de um modo gentil e honesto, sem banalizá-la
. Após a morte do escritor em 1996, muitos textos tentaram prestar homenagens a sua obra e influência. Me lembro de uma matéria lamentável publicada no Diário em 2006, ocasião dos 10 anos do falecimento de Caio. Nela, pouco se falava da relevância de seus escritos, e muito sobre “o-quanto-o-escritor-gay-e-excêntrico-que-saiu-de-santiago-era-agora-reconhecido”. Fotos de seus pertences pessoais, feito resquícios de uma vida torpe, ilustravam o texto. Triste. Logo que li esse jornal, me lembrei de uma passagem da carta enviada por Caio a Jacqueline Cantore menos de um ano antes de sua morte: "[...] Na seca de amor que sinto agora, nesta Porto Alegre que é como uma enorme platéia à espera do Desfecho Trágico da Desvairada Vida de Caio F. para imediatamente providenciar algum nome de biblioteca num centro cultural de subúrbio, nesta Porto Alegre onde ninguém exceto Luciano Alabarse e Lya Luft me procuram sinceros e leais, sozinho com a velhice de meus pais, minhas plantas me consolam".
É de Lya, a propósito, uma das homenagens mais bonitas e dignas a Caio que conheci. Ela teve a gentileza do acaso e do tempo a seu favor: pôde conhecer e conviver com o escritor. Outros, como Guilherme, apenas sonham.

domingo, 16 de agosto de 2009

das partidas

Acabou.
Ele? Ligou consecutivas vezes, encerrando cada ligação sem aviso, como forma desesperada de manter algum controle e dignidade. Chamou-a de puta, cadela, vadia, não-imaginava-que-tu-terminaria-assim-vai-te-foder. Soluçou mágoas e enviou memórias rotas, numa síntese daquilo que havia sido talvez, um dia, bonito.

Ela? Sem afetação, recebeu aquelas caixas com curiosidade quase arqueológica, tentando encontrar nelas o prenúncio do fim que acontecera. Enterneceu-se com as fotos, rasgou os cartões de aniversário, guardou as roupas que lhe pertenciam. As dele? A camisa do mengão foi para o afilhado da prima. Os abrigos, para a campanha do agasalho. Os livros também não devolveu. E eram im-por-ta-dos.