domingo, 25 de maio de 2008

you're looking for babe.



It Ain't me, Babe.
Joan Baez
Show de 1965

Ain't me




- Laura, quem é esse homem na tua jaqueta?
- É o Dylan, no primeiro disco dele.
- Aaahn. Achei que fosse teu namorado.
- Nnão. Não.

Chiclete na garganta. Se não fosse pelos cabelos mais claros, a pequena diferença cronológica, a voz de caminhão de gás e a falta total de talento pra música, me sentiria quase a Joan Baez.


- E ele deixa tu sair com outro homem assim, preso na tua roupa?
- aaa-ha.
- O que é a modernidade.


-pratuvê.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

o problema é que

parece tanto para que, de repente assim, a moça dê os ombros e vá embora, deixando como rastro apenas o vulto da sua saia rodada.

Bailinho

Ele não era exatamente o que você pensou. Não. Ele era exatamente o eco da porta violentada pelos teus punhos. Aquilo que você evitava com esse ar de mocinha-noir-preocupada-com-as-causas-do-mundo. Pudera. Culpa sua. Você sempre soube, o cotidiano tentou tantas vezes denunciá-lo, mas você não quis. Não percebeu o café sempre esquecido na xícara, a quantidade excessiva de aspartame, as janelas invariavelmente fechadas, a barba rala - milimetricamente esculpida. Há algo de estranho nessas ausências e excessos. Como poderia saber? Sabia. Encara. Você sempre esteve à margem, na beira. Talvez seja isso, você o tratou como aqueles copos que enchia demais, então caminhava pela sala desse seu jeito engraçado, com passos de bailarina torpe, com medo de transbordá-lo, ao invés de jogar um pouquinho que fosse no ralo. Não.

Você nunca tolerou desperdícios, não é?

Agora precisa vê-lo todo ir embora, a água no tapete, os pés sangrando por essas sapatilhas sempre tão apertadas pelo medo de não tê-lo.

Não mais. O eco torna-se distante. A porta murmura, os punhos dele também, em algum lugar que não o seu. Corre, quem sabe um demi-plié ajude, você ensaiou tanto. Mais um pouco e vocês não transbordariam, ficariam nas beiradas, tão sufocados mas ainda assim em frangalhos que só ele - ou você - poderiam suportar.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

desconhecer-se


Devo ter um rosto meio genérico. Desses que, se diminuir a boca e empinar um pouco menos o nariz, deve ficar sempre parecido com. Quando Santa Maria se tornou a poeira dos meus sapatos, passei a ser uma espécie de trampolim memorialista. Aquele tipo de pessoa que sempre faz lembrar outra. Tudo bem, sei que a terrinha de praça bonita, igreja, clube e paralelepípedos da qual saí talvez não seja padrão de comparação. Quando a gente pertence a um lugar, passa a vê-lo como único. Acho que era assim que me via aquele lugar com cheiro de terra vermelha, que sempre coloriu tão bem os meus sapatos.

Mas voltando: muitas criaturas da boca do monte, quando me conhecem, analisam minhas feições por alguns segundos determinantes. Com aquele olhar pra dentro, como quem busca encontrar algo na memória, balbuciam: "sabe, tu me lembra alguém...só não sei...". E assim fica. O alguém que não sou eu é, na maioria das vezes, indeterminado. Outras vezes, ele ganha feições mais conhecidas, como na vez que me disseram ser parecida com aquelas filhas da Baby do Brasil. "Como é o nome delas mesmo?" "Ah, Sarah, Cheeva, Zabelê.. não lembro." "E com qual delas sou parecida?" "Ah, meio um misto assim das três. Sabe?"

Não. Nunca sabia quem era a prima da colega que tinha um jeito assim, igual ao meu. Nem a moça da padaria de Santiago, ou a guria que usava os anéis nos mesmos dedos e pintava as unhas assim, tão igualzinho.
O mais pitoresco? Quando encontro pessoas que tem por mim uma intimidade não consentida. Vejo que elas me conhecem, que me sorriem, cúmplices de algo que não existiu. O que dizer para uma garota que me abraça efusivamente e pergunta como vai a minha vida sexual? Ou para um moço que, em tom confessional, me conta sobre a próstata do pai?

Sorrio. E ouço, como uma velha conhecida, ou como a namorada de infância, que depois de duas semanas trocou alianças de anelgarrafapet, para depois declarar a separação após uma briga imperdoável no supertrunfo. É legal fingir-se para os outros vezenquando. Assumir papéis, ouvir papos não esperados, parar a vida para ser um outro alguém que faz falta, que escuta, que conhece, mesmo que eles não.