sexta-feira, 25 de abril de 2008

pesar-pensado

Canso desse tom de todo dia, de ter que gritar incessantemente. Não, sei que essa minha camiseta beringela talvez denuncie a minha precisão por ser escutada, por atenção sincera, mas não pense isso, como se nas suas pupilas eu fosse uma adolecentezinha-burguesa-de-saia-rodada-que-a-d-o-r-a-mostrar-se-assim, raivosa. Isso é apenas um começo. O princípio do princípio do.
Não me entenda mal, só queria dizer aquilo que você não consegue decifrar nesse meu colar de contas cor cereja. Talvez sejam elas, essas contas, que façam as pessoas se dissimularem e desdissimularem assim, tão fácil pra mim.
Pode parecer rasteiro me irritar por isso, por me obrigarem a gritar banalidades, enquanto eles reviram seus olhos bocejosos para além dos meus. Se fosse apenas o olhar, o tédio de tantos encontros.. mas acaba tudo transformado em grito, saturação, exagero e fastio. Eu, você, meu colar de contas cor de cereja e eles, tão opacos que eram.
Quero vê-los mais suspirosos, suspirados. Falar-lhes em um tom mediano, como uma inglesa que contem seu riso demasiadamente inglês em uma comédia italiana. Ser mais precisa de mim, no tom. Explicar as contas cereja, lamber os dedos e falar em filmes e livros sem me preocupar em ser a moça culta e in que eles querem que eu seja.
Balbuciar e ser balbuciada assim como tem que ser: doce.
Eu sei, sempre tem que ser doce para mim, mas o que mais poderia ser para além desses ladrilhos que vivem fazendo graça com meus sapatos?
Desculpa, acabo indo além desse meu pesar-pensado, pesar-pensado sim. Fica bonito, né? Ou pensar-pesado, também serviria. Isso. Me ouviu? Ah, sim. Pra você também serve. É só pensar assim, bem pesarosamente.


...


É. O tênis laranja fica perfeito com esse parquê meio mogno.

terça-feira, 22 de abril de 2008

das amenidades

Passei na prova da auto escola e pintei as unhas cor tomate-amistoso-que-sorri-pra-moça-na-feira. Tão feliz fiquei. Engraçado ficar nervosa com coisas triviais assim, como uma voltinha de carro com o senhor examinador do Detran para testar minhas habilidades automobilísticas. Acho que meu maior mérito, além de não entrar na contramão no cruzamento (diabos..) foi tagarelar. Conversei, ah se conversei com o moço que me cuidava, na tentativa de que, quem sabe, ele me achasse uma moça simpática e esquecesse algumas trivialidades do momento, como a minha avaliação.

Dissertei sobre a origem do meu sobrenome pomposo - Hastenpflug, alemão sim. Indica a profissão. Hast ein pflug, "tens um arado". Meus antepassados provavelmente eram agricultores, daqueles que trabalhavam com enxadas (e lá se ia, pras cucuias, meu tom professoral. Só faltou a mímica, largar as mãos do volante e me pôr a capinar no vazio, com o olhar de han-han). Ijuí, conhece? Legal sim. Motorista respeita pedestre, é cidade que pratica bem a direção defensiva (demonstração de conhecimento teórico, touché). De São Luiz Gonzaga. Já foi? É! Eita cidade esburacada. Gosto daqui sim. Eu faço publicidade e ciências sociais, quer dizer, fica meio pomposo assim dizer isso, porque na verdade nem é tanto. Na subida? Ah tá. Pronto. (pisca,pisca,pisca). Bom o celtinha, demora um monte pra apagar néam. (pisca,pisca). Na próxima? Ok.(piiisca).
Sabe, o senhor tem um grande mérito de deixar as pessoas a vontade. (voz embargada).
Passei? (pulo, pulo, outro pulo. Cara de criança na quitanda. Abraço e reabraço na instrutora).

Feliz - e bem quietinha - voltou a motorista (a pé) para casa.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

vou tratar de criar meu dragão e cuidar para que seja doce.

de uma doçura assim, descompromissada, onde a desilusão antecipada não será vista como divinatória, mas sim como previsão dos novos bons tempos.


que serão.


:)