sexta-feira, 28 de março de 2008

Era terça-feira quando a peste foi anunciada. Milena olhou para os últimos caquis maduros e chorou. Os morangos que colhia entre as folhas secas nunca pareceram tão vermelhos.
Era domingo a tarde quando Cina o encontrou no parque. Conversaram amenidades. Ele elogiou seu corpo de bailarina. Com um demi-plié discreto ela se aproximou e, às escuras, dançaram um belo xaxado.

Seus olhos há mais de uma semana vendados não o impediram de conhecer cada detalhe daquela sala. Mediu palmo por palmo, imaginou a colocação dos móveis e a iluminação. Negociou sua libertação em troca de um projeto. Ao invés de comida, ganhou uma fita métrica. Morreu arquitetando sonhos.

domingo, 23 de março de 2008

domingo

E a gente se olhava e se despercebia, como esses estranhos que sutilmente se reconhecem pelas meias, pelos nós desamarrados dos sapatos e pela imperfeição disfarçada. Queria entender, saber o porquê dessa sua úlcera, essa vontade agressiva de não me sentir, de me tocar como poeira, aquela que paira no vão esquecido da tua janela.

Te gosto e te percebo tanto. Talvez esteja aí minha gravidade, meu aquilo escondido que agora você vê, depois de tanto tempo. Perceber e desperceber. Não parece estranho? Talvez seja só o agosto, o verão perdido ou a nossa ânsia de ser. Não sei o que fazer pra recuperar minha solidão já dissimulada, esse espaço entre os dedos do qual só eu sinto falta.

domingo, 16 de março de 2008

e que seja doce

porque eu não posso parar de repetir.

sexta-feira, 14 de março de 2008

liberdade

é não saber onde ficaram as sandálias.

segunda-feira, 10 de março de 2008

domingo, 9 de março de 2008

lindezas

Porque é lindo, simplesmente lindo, e eu seria tão mais feliz se conseguisse ler um poema dele por dia.
Falo do Rilke, o Rainer Maria Rilke, que uma moça de voz grave e pensamentos de estepe me apresentou certa feita. Aliás, é a ela que dedico o que vem abaixo. Um trecho de "Cartas a um Jovem Poeta". Um livro meio oportunista, quase como o "Relato de um Náufrago", do Garcia Marquez. Mas mesmo assim, lindo. Não cansarei de dizer, lindo, lindo, lindo, com as mãos suspirosas e a garganta seca. De saudade.



Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga a si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegassem a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.

R.M.R

terça-feira, 4 de março de 2008

romanticozinho.

Nos olhos dos meus olhos
teu olhar incandescia.
Ilusão do pensamento
ou o dia que caía?

Era noite, quase noite,
refletida em teu ser.
Eras a doce quimera
do saber sem o saber.

Nada é, tudo se torna
na soturna embriaguez.
É lépida a madrugada
do amor que então se fez.

Tua íris, tão singela
cismava em mirar pra si.
Esquecera d’outros olhos
que suplicavam por ti?

Viúvas eram as tardes
da morte de cada dia
em teus olhos, já cerrados
do torpor que em mim jazia.

Anoiteço o que fui
na ilusão dos olhos teus
doce dia que fulgura
o raiar de outro adeus.

Da 68 a 84. Ele está há quinze, quinze longo minutos naquela primeira página, aquela, que a gente sempre fica angustiado pra virar e ver o que vem depois e depois e depois. Se o moço com voz de radialista continuar nesse embalo, serão 260 minutos, 4h20 de um palavreado manso sobre direção defensiva.
Ele me olha. Faço cara de aluna complacente. O café está muito longe. É preciso diminuir a velocidade perto de escolas, hospitais e creches. Camisas laranjas tipificam demais as pessoas, sabe? Sorrio. É um laranja assim, meio abacate, quase maduro. Acidentes evitáveis são todos aqueles em que, se os condutores envolvidos tivessem agido corretamente, o acidente provavelmente não teria acontecido. Ah, me sinto tão melhor agora. Então quer dizer que os acidentes evitáveis podem também ser... inevitáveis! ¨Todo acidente é evitável. Carreguem isso no coração". Carrego. Haja complacência.
Acho que esse moço poderia gravar "O Príncipe" e vender na esquina do calçadão, perto dos caras do jornal. Ou substituir o Lombardi (até a sombra é parecida!), ou dar conselhos naqueles programas altruistas da madrugada. Talento e carisma ele tem, ah se tem. "É muito perigoso andar no trânsito retocando a maquiagem. Você pode engolir o batom ou estar passando o lápis no olho e... tof!!!"

a-ham.