terça-feira, 19 de agosto de 2008

agosto

Atraso. Aula. Chuva. Azulzinho. Choro para simular a chuva. Chuva que dissimula o choro.

R$ 2,25. Obrigada, seu moço. Bom trabalho aí. Poça. Sapatos de veludo vermelho agora carmim.
Chego ao meu destino. Será que realmente a algum lugar? (nada, por hora, está para além das partidas, por mais que cada chegada clichê insista no contrário).
Mentos para aliviar o atraso. Atraso para comprar o mentos. Boletas azuis adocicadas refrescantes na boca. Agora sim, deveria ser.

Com cabelos ensopados, saio cambaleante e mastigadora pelo prédio todo branco. Bem mundana, tropeço. Azulejos brancos lentamente se aproximam. Me equilibro, com o mentos quase no estômago. Um moço se aproxima, todo desdenhado, com um risinho daqueles que sacam.

Sim, dos que sabem dos dias da gente, dos mentos na garganta, dos sapatos agora carmim, do choro dissimulado pela chuva. Rapaz que, por um tropeço, me soube. Com o olhar complascente, lentamente se aproximou.

Baixo os olhos? Revido? Desdenho? Finjo?
Eu jogava os cabelos ensopados para longe dos meus olhos fugidios quando o vi sussurrar:

- Tá. Isso não aconteceu. Eu não passei por aqui. Você não tropeçou. A gente não se viu. Ok?

- Ok.

Disse eu.
e lá se ia a pessoa que mais tinha me visto, que mais me sabia no meio daqueles azulejos tão brancos. Por mais que eu nunca a tivesse encontrado. Nunquinha.


terça-feira, 15 de julho de 2008

me dê motivo

Que coisa estranha isso, um blog vazio. Ando sem motivos - nobres, fúteis, coloridos-divertidos pra postar. A vida vaimuitobemsimsinhôobrigadanãoqueroquecêleiaminhamãonão, mas não sei. Algo falta. Falta não, é ausente, pra honrar aquele texto-mantra do Drummond que lembro sempre quando sinto essas, as ausências, e que talvez em um dia colorido eu poste aqui.
No mais, monografia indo, projetinho bacaninha indo, cursos e idiomas e coisas pra se tornar uma publicitária-pesquisadora feliz iiiindo.
Que coisa isso da vida, da gente mudar de perspectiva a toda hora. É aquela velha sina do referencial, né? tudo depende dele (ok, o Stephen Hawking sentiria dor no estômago com essa).


Só permanece isso, essa vontade louca de ler Caio.
Talvez represente algo, bem mais do que essas ausências todas.
né?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Olhei o filme sobre Edith Piaf e admirei o teto por horas. Que olhos refletidos os dela. Os três edredons que me aqueciam deviam se perguntar: que passa na mente dessa moça insone?Levantar, deslevantar. Que moça de vida sofrida. Ela é de Belleville, das Triplets. Parece a animação. Tãolindoetãotristeassim. Apaga a luz. Dorme. Não esquece o desperta...
dor. Esquece. Nove e uns. Céusmeus. Cartório. Dor no corpo desumana. Sonho de ser Piaf também, mas só nos agouros da vida. Como alguém vai acordar sorrindo para as estrelas do teto quando sonha que teve a casa queimada? Nem vem. O cartório. O dinheiro. O cheque. As horas. O compromisso

[perdido.

domingo, 25 de maio de 2008

you're looking for babe.



It Ain't me, Babe.
Joan Baez
Show de 1965

Ain't me




- Laura, quem é esse homem na tua jaqueta?
- É o Dylan, no primeiro disco dele.
- Aaahn. Achei que fosse teu namorado.
- Nnão. Não.

Chiclete na garganta. Se não fosse pelos cabelos mais claros, a pequena diferença cronológica, a voz de caminhão de gás e a falta total de talento pra música, me sentiria quase a Joan Baez.


- E ele deixa tu sair com outro homem assim, preso na tua roupa?
- aaa-ha.
- O que é a modernidade.


-pratuvê.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

o problema é que

parece tanto para que, de repente assim, a moça dê os ombros e vá embora, deixando como rastro apenas o vulto da sua saia rodada.

Bailinho

Ele não era exatamente o que você pensou. Não. Ele era exatamente o eco da porta violentada pelos teus punhos. Aquilo que você evitava com esse ar de mocinha-noir-preocupada-com-as-causas-do-mundo. Pudera. Culpa sua. Você sempre soube, o cotidiano tentou tantas vezes denunciá-lo, mas você não quis. Não percebeu o café sempre esquecido na xícara, a quantidade excessiva de aspartame, as janelas invariavelmente fechadas, a barba rala - milimetricamente esculpida. Há algo de estranho nessas ausências e excessos. Como poderia saber? Sabia. Encara. Você sempre esteve à margem, na beira. Talvez seja isso, você o tratou como aqueles copos que enchia demais, então caminhava pela sala desse seu jeito engraçado, com passos de bailarina torpe, com medo de transbordá-lo, ao invés de jogar um pouquinho que fosse no ralo. Não.

Você nunca tolerou desperdícios, não é?

Agora precisa vê-lo todo ir embora, a água no tapete, os pés sangrando por essas sapatilhas sempre tão apertadas pelo medo de não tê-lo.

Não mais. O eco torna-se distante. A porta murmura, os punhos dele também, em algum lugar que não o seu. Corre, quem sabe um demi-plié ajude, você ensaiou tanto. Mais um pouco e vocês não transbordariam, ficariam nas beiradas, tão sufocados mas ainda assim em frangalhos que só ele - ou você - poderiam suportar.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

desconhecer-se


Devo ter um rosto meio genérico. Desses que, se diminuir a boca e empinar um pouco menos o nariz, deve ficar sempre parecido com. Quando Santa Maria se tornou a poeira dos meus sapatos, passei a ser uma espécie de trampolim memorialista. Aquele tipo de pessoa que sempre faz lembrar outra. Tudo bem, sei que a terrinha de praça bonita, igreja, clube e paralelepípedos da qual saí talvez não seja padrão de comparação. Quando a gente pertence a um lugar, passa a vê-lo como único. Acho que era assim que me via aquele lugar com cheiro de terra vermelha, que sempre coloriu tão bem os meus sapatos.

Mas voltando: muitas criaturas da boca do monte, quando me conhecem, analisam minhas feições por alguns segundos determinantes. Com aquele olhar pra dentro, como quem busca encontrar algo na memória, balbuciam: "sabe, tu me lembra alguém...só não sei...". E assim fica. O alguém que não sou eu é, na maioria das vezes, indeterminado. Outras vezes, ele ganha feições mais conhecidas, como na vez que me disseram ser parecida com aquelas filhas da Baby do Brasil. "Como é o nome delas mesmo?" "Ah, Sarah, Cheeva, Zabelê.. não lembro." "E com qual delas sou parecida?" "Ah, meio um misto assim das três. Sabe?"

Não. Nunca sabia quem era a prima da colega que tinha um jeito assim, igual ao meu. Nem a moça da padaria de Santiago, ou a guria que usava os anéis nos mesmos dedos e pintava as unhas assim, tão igualzinho.
O mais pitoresco? Quando encontro pessoas que tem por mim uma intimidade não consentida. Vejo que elas me conhecem, que me sorriem, cúmplices de algo que não existiu. O que dizer para uma garota que me abraça efusivamente e pergunta como vai a minha vida sexual? Ou para um moço que, em tom confessional, me conta sobre a próstata do pai?

Sorrio. E ouço, como uma velha conhecida, ou como a namorada de infância, que depois de duas semanas trocou alianças de anelgarrafapet, para depois declarar a separação após uma briga imperdoável no supertrunfo. É legal fingir-se para os outros vezenquando. Assumir papéis, ouvir papos não esperados, parar a vida para ser um outro alguém que faz falta, que escuta, que conhece, mesmo que eles não.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

pesar-pensado

Canso desse tom de todo dia, de ter que gritar incessantemente. Não, sei que essa minha camiseta beringela talvez denuncie a minha precisão por ser escutada, por atenção sincera, mas não pense isso, como se nas suas pupilas eu fosse uma adolecentezinha-burguesa-de-saia-rodada-que-a-d-o-r-a-mostrar-se-assim, raivosa. Isso é apenas um começo. O princípio do princípio do.
Não me entenda mal, só queria dizer aquilo que você não consegue decifrar nesse meu colar de contas cor cereja. Talvez sejam elas, essas contas, que façam as pessoas se dissimularem e desdissimularem assim, tão fácil pra mim.
Pode parecer rasteiro me irritar por isso, por me obrigarem a gritar banalidades, enquanto eles reviram seus olhos bocejosos para além dos meus. Se fosse apenas o olhar, o tédio de tantos encontros.. mas acaba tudo transformado em grito, saturação, exagero e fastio. Eu, você, meu colar de contas cor de cereja e eles, tão opacos que eram.
Quero vê-los mais suspirosos, suspirados. Falar-lhes em um tom mediano, como uma inglesa que contem seu riso demasiadamente inglês em uma comédia italiana. Ser mais precisa de mim, no tom. Explicar as contas cereja, lamber os dedos e falar em filmes e livros sem me preocupar em ser a moça culta e in que eles querem que eu seja.
Balbuciar e ser balbuciada assim como tem que ser: doce.
Eu sei, sempre tem que ser doce para mim, mas o que mais poderia ser para além desses ladrilhos que vivem fazendo graça com meus sapatos?
Desculpa, acabo indo além desse meu pesar-pensado, pesar-pensado sim. Fica bonito, né? Ou pensar-pesado, também serviria. Isso. Me ouviu? Ah, sim. Pra você também serve. É só pensar assim, bem pesarosamente.


...


É. O tênis laranja fica perfeito com esse parquê meio mogno.

terça-feira, 22 de abril de 2008

das amenidades

Passei na prova da auto escola e pintei as unhas cor tomate-amistoso-que-sorri-pra-moça-na-feira. Tão feliz fiquei. Engraçado ficar nervosa com coisas triviais assim, como uma voltinha de carro com o senhor examinador do Detran para testar minhas habilidades automobilísticas. Acho que meu maior mérito, além de não entrar na contramão no cruzamento (diabos..) foi tagarelar. Conversei, ah se conversei com o moço que me cuidava, na tentativa de que, quem sabe, ele me achasse uma moça simpática e esquecesse algumas trivialidades do momento, como a minha avaliação.

Dissertei sobre a origem do meu sobrenome pomposo - Hastenpflug, alemão sim. Indica a profissão. Hast ein pflug, "tens um arado". Meus antepassados provavelmente eram agricultores, daqueles que trabalhavam com enxadas (e lá se ia, pras cucuias, meu tom professoral. Só faltou a mímica, largar as mãos do volante e me pôr a capinar no vazio, com o olhar de han-han). Ijuí, conhece? Legal sim. Motorista respeita pedestre, é cidade que pratica bem a direção defensiva (demonstração de conhecimento teórico, touché). De São Luiz Gonzaga. Já foi? É! Eita cidade esburacada. Gosto daqui sim. Eu faço publicidade e ciências sociais, quer dizer, fica meio pomposo assim dizer isso, porque na verdade nem é tanto. Na subida? Ah tá. Pronto. (pisca,pisca,pisca). Bom o celtinha, demora um monte pra apagar néam. (pisca,pisca). Na próxima? Ok.(piiisca).
Sabe, o senhor tem um grande mérito de deixar as pessoas a vontade. (voz embargada).
Passei? (pulo, pulo, outro pulo. Cara de criança na quitanda. Abraço e reabraço na instrutora).

Feliz - e bem quietinha - voltou a motorista (a pé) para casa.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

vou tratar de criar meu dragão e cuidar para que seja doce.

de uma doçura assim, descompromissada, onde a desilusão antecipada não será vista como divinatória, mas sim como previsão dos novos bons tempos.


que serão.


:)

sexta-feira, 28 de março de 2008

Era terça-feira quando a peste foi anunciada. Milena olhou para os últimos caquis maduros e chorou. Os morangos que colhia entre as folhas secas nunca pareceram tão vermelhos.
Era domingo a tarde quando Cina o encontrou no parque. Conversaram amenidades. Ele elogiou seu corpo de bailarina. Com um demi-plié discreto ela se aproximou e, às escuras, dançaram um belo xaxado.

Seus olhos há mais de uma semana vendados não o impediram de conhecer cada detalhe daquela sala. Mediu palmo por palmo, imaginou a colocação dos móveis e a iluminação. Negociou sua libertação em troca de um projeto. Ao invés de comida, ganhou uma fita métrica. Morreu arquitetando sonhos.

domingo, 23 de março de 2008

domingo

E a gente se olhava e se despercebia, como esses estranhos que sutilmente se reconhecem pelas meias, pelos nós desamarrados dos sapatos e pela imperfeição disfarçada. Queria entender, saber o porquê dessa sua úlcera, essa vontade agressiva de não me sentir, de me tocar como poeira, aquela que paira no vão esquecido da tua janela.

Te gosto e te percebo tanto. Talvez esteja aí minha gravidade, meu aquilo escondido que agora você vê, depois de tanto tempo. Perceber e desperceber. Não parece estranho? Talvez seja só o agosto, o verão perdido ou a nossa ânsia de ser. Não sei o que fazer pra recuperar minha solidão já dissimulada, esse espaço entre os dedos do qual só eu sinto falta.

domingo, 16 de março de 2008

e que seja doce

porque eu não posso parar de repetir.

sexta-feira, 14 de março de 2008

liberdade

é não saber onde ficaram as sandálias.

segunda-feira, 10 de março de 2008

domingo, 9 de março de 2008

lindezas

Porque é lindo, simplesmente lindo, e eu seria tão mais feliz se conseguisse ler um poema dele por dia.
Falo do Rilke, o Rainer Maria Rilke, que uma moça de voz grave e pensamentos de estepe me apresentou certa feita. Aliás, é a ela que dedico o que vem abaixo. Um trecho de "Cartas a um Jovem Poeta". Um livro meio oportunista, quase como o "Relato de um Náufrago", do Garcia Marquez. Mas mesmo assim, lindo. Não cansarei de dizer, lindo, lindo, lindo, com as mãos suspirosas e a garganta seca. De saudade.



Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga a si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegassem a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.

R.M.R

terça-feira, 4 de março de 2008

romanticozinho.

Nos olhos dos meus olhos
teu olhar incandescia.
Ilusão do pensamento
ou o dia que caía?

Era noite, quase noite,
refletida em teu ser.
Eras a doce quimera
do saber sem o saber.

Nada é, tudo se torna
na soturna embriaguez.
É lépida a madrugada
do amor que então se fez.

Tua íris, tão singela
cismava em mirar pra si.
Esquecera d’outros olhos
que suplicavam por ti?

Viúvas eram as tardes
da morte de cada dia
em teus olhos, já cerrados
do torpor que em mim jazia.

Anoiteço o que fui
na ilusão dos olhos teus
doce dia que fulgura
o raiar de outro adeus.

Da 68 a 84. Ele está há quinze, quinze longo minutos naquela primeira página, aquela, que a gente sempre fica angustiado pra virar e ver o que vem depois e depois e depois. Se o moço com voz de radialista continuar nesse embalo, serão 260 minutos, 4h20 de um palavreado manso sobre direção defensiva.
Ele me olha. Faço cara de aluna complacente. O café está muito longe. É preciso diminuir a velocidade perto de escolas, hospitais e creches. Camisas laranjas tipificam demais as pessoas, sabe? Sorrio. É um laranja assim, meio abacate, quase maduro. Acidentes evitáveis são todos aqueles em que, se os condutores envolvidos tivessem agido corretamente, o acidente provavelmente não teria acontecido. Ah, me sinto tão melhor agora. Então quer dizer que os acidentes evitáveis podem também ser... inevitáveis! ¨Todo acidente é evitável. Carreguem isso no coração". Carrego. Haja complacência.
Acho que esse moço poderia gravar "O Príncipe" e vender na esquina do calçadão, perto dos caras do jornal. Ou substituir o Lombardi (até a sombra é parecida!), ou dar conselhos naqueles programas altruistas da madrugada. Talento e carisma ele tem, ah se tem. "É muito perigoso andar no trânsito retocando a maquiagem. Você pode engolir o batom ou estar passando o lápis no olho e... tof!!!"

a-ham.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Só ela sabia encontrar a memória alheia no meio das pilhas de papel inútil. Organizava em ordem alfabética quando descobriu aquela carta carregada de obscenidades. Cega de malícia, abriu o decote e arquivou suas intenções ali mesmo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Arrumava seu colarinho quando contou sobre seu último namorado. Cafajeste, ordinário, dizia Virgínia enquanto empapava com lágrimas sua camisa branca, recostada em seu ombro rígido. Acalmou-se e terminou de abotoá-lo. Pediu desculpas, despediu-se e fechou seu caixão.