quarta-feira, 31 de outubro de 2007

domingo, 28 de outubro de 2007

weary

Pus fogo num chumaço da minha franja no fogão, enquanto arquitetava um ângulo delicado para queimar as cerejas.


Fora o cheiro, nem uma pitada de dó. Ainda mais com a Madeleine me esperando na janela.



(ser uma chef tristonha tem suas vantagens, ainda mais quando o restaurante está vazio)



quinta-feira, 25 de outubro de 2007

quando eu crescer

quero ser tão auto-explicativa quanto o aurélio.






quarta-feira, 24 de outubro de 2007

dicionomante

Então, cansada de não-me-venhas, resolvi puxar o aurelião pro colo.
Num tom meio ritualístico, fechei bem os olhos, abri em uma daquelas 1838 páginas amareladas e olhei a primeira palavra que o dedão apontou.

nefelibata (De nefeli- + bata.) Adj. 2 g. e s. 2 g. 1. Que ou quem anda nas nuvens. 2. Diz-se de, ou literato alambicado que despreza os processos simples, fáceis.



Rá.

elementar, meu caro Uótson.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Chegada



Ahnn desculpa.Bati muito a porta? Ela sempre fecha sozinha, a teimosa. Sim, fiz uma boa viagem. Na verdade não, o retorno é sempre meio futurista demais, mas nada que desespere, faça querer fugir de casa, mudar de vida, essas coisas.

É, bastante tempo, mas faz bem, faz parte. Preciso dormir. Cadê minhas pantufas? Andou dormindo nelas.. hun? Sei. A parede não é o lugar mais confortável desse universo. Desse quarto, talvez. Tá. Tô zombando sim.

Sabe que, reparando agora, tu fica bem com esse pijaminha rosa? Tenho um parecido, só que não é tão choque. Imagina dormir e acordar assim, com esse teu rosa fosforescente? Tá, desculpa. Eu paro. Sei, sei, fico agitada antes de dormir, deve ser por causa do teto com essas intermináveis tirinhas de madeira que que fico tentando contar toda noite, toda noite sim, até tu me desconcentrar, sempre.

Eu desligo a luz , mas deixa eu tomar o chá antes. Cidreira, por que? É, tem gosto de mato, de solidão boa, quente.

Ah, nem vem ronronando assim. Não vou dividir esse pouquinho que resta de mim contigo. Deixa eu dormir, daí quem sabe tu vem sorrateiro e adormece nos meus pés? Não, isso não é uma sugestão, até porque não suportaria esse teu pijama, mesmo sendo só uma questão de cor. Ouquei. Boa noite. Gatos precisam de boas noites? Gatos só dormem. ouqueeeei. parei.



Fecho os olhos, com pensamento fixo na xícara do café. Aquela, amarelinha com bolas em tom de azul, que combina direitinho com a dele. Direitinho.

Alice

Na frente do espelho do elevador, sentia-se pequena.

De salto agulha na sandália de tiras finas como lâminas, era como se não fosse.
Aqueles sapatos carmim, pelos quais pagara tão caro,a faziam sentir como se estivesse em cima de um pedestal. Nada mais justo, pensava. Olhou para o espelho demoradamente. Era estranho como aquele pedestal de plástico a projetava e diminuía, fazendo dela uma estátua talhada por um velho artesão de talento reconhecido, mas já cego dos olhos e do espírito.


Para. Desvia. Quebra o espelho. Parte o teu rosto, vadia.

Estava exposta demais, si mesma demais. Aquela luz cega revelava todas as imperfeições que seu artesão teimava em esconder. Olhos mal delineados, de traços pretos sujos, inacabados, crassos. Cabelo empapado pelo suor do porvir. Boca saliente, irritante, efusiva. Rococó, um pouco barroca, nada abstrata. Nua. Surrealista.

Já não era possível. Era ela.

Pensou em chorar, quis deixar-se cegar pela luz. Quis descer.Fez de si gesso, argila, estátua que vira notícia porque chora. Ela não.

Imóvel, acompanhou pelo espelho a porta abrir-se atrás de si. Feito escultura, viu as luzes se apagarem e tudo tornar-se tão mais claro que já podia fingir ser admirada, como obra que só os idiotas idolatram, justamente por desconhecê-la.






quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Dos vazios.

e de repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa
morna e ingênua
que vai ficando no caminho.
que é escuro e frio mas também bonito
porque é iluminado

pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

domingo, 7 de outubro de 2007

Procura-se um dragão

para dividir apartamento. Na verdade, quarto. Na verdade, cama. Na verdade, a parte de baixo do colchão. Pode ser azul, desde que asseado. Pode não falar muito, desde que conte uma mentira doce por dia.

Divido internet, noites insones e cerejas. Permito princesas, mau-humor e lambidas.

Aos dragões mais preocupados: não é preciso trazer seus pertences. Já tenho uma ovelha negra de pelúcia, um móbile com penduricalhos azuis e quatro paredes brancas.

Interessados bater na janela do sexto andar. Aquela, com furinhos luminosos e olhos atentos, escondidos por entre os vãos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Nowhere Lau.

Cafés aguados, doces açucarados, chuva e vento norte pesando nos cabelos.
Minimiza, maximiza, fecha de vez, desiste. Não é dia de ser uma moça de família com idéias na cabeça. Não é dia de ser.
Mãns pensa goriã, só um textinhozinho ou dois. Patético. Fácil. Escadas. Café. Respira. Maximiza. Digita. Não pensa. Pensa. Esquece.

Gosto de cereja madura que, com um bocejo, tento em vão prender entre os dentes.

Ah, se sesse.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Era uma tarde chuvosa aquela na qual eu, decidida em render-me às súplicas do meu espírito mulherzinha, pus os pés no salão (supostamente de beleza) para fazer as unhas. Talvez os homens não saibam, mas arrumá-las é uma atividade muito monótona. Ou talvez saibam e, por isso, deixem esse ofício penoso a nós, tolas mulheres.
Contudo, naquela tarde, foi justamente o universo masculino que bagunçou o marasmo do ambiente: entre acetonas, lixas e esmaltes, duas mulheres de adiposa maturidade conversavam sobre os homens.
- Mulher, sá's que descobri como achar homem solteiro?
- Ahh é? Mas como?
- Vai no Nacional, no fim da tarde, e fica ali - perto da seção de congelados, entre os pães de queijo e os camarões - sabe?
- Ãã-hã.
- Pois é. Por essa hora, chove homem solteiro lá, pra buscar comida pronta depois do expediente.
- Hann. E tu, já catou alguma coisa?
- Não. Ou sim. Quer dizer, achei uma batata-frita ótima. Bem mais crocante, sabe?

De unhas carmim e riso contido, fui ao supermercado. Buscar batatas-fritas.