quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Se não fosse o café amargo, ela jamais teria admirado o inverno que entrava pelos vãos da cortina azul crochê, muito menos ido até o parapeito com ar de donzela-noir-saudosa-dos-bons-tempos-que-viriam. Se não fosse o café exalando vazios, sua blusa não teria sido tão rapidamente manchada e ela não veria o pires de porcelana estilhaçado na calçada. Se fosse chá, doçuras ou o futuro que estivessem – segundos antes – naquela janela, eu jamais a teria visto.
Claro, nada disso eu sabia. Se tivesse prestado menos atenção no pires, talvez. Tão rápido, mas era quase possível enxergar aquelas firulas pintadas à mão que sendo estilhaçadas no chão. Imaginei aqueles olhos serenos descendo afoitos cada degrau até abrirem a porta de ferro e virem direto ao encontro dos meus.
- Cê tá bem? Ela diria.
– A-ham, to sim. Eu responderia, com o olhar mais dolorido que conseguisse lançar.
Mas não, não ela. Vi seus olhos sorrindo, gracejando de mim, parado na calçada com cara de não-sei-o-quê. Idiota, idiota. Ela deve ter pensado que você é uma dessas pessoas que se impressiona com pires estilhaçados, que lamenta os cacos da fina louça portuguesa como se tivessem apagado uma parte da história humana.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Dasjustificativasqueagenteusaparaaliviaressesmomentostirânicosondesuspirarpradentroacabasendoa únicavontadepermitida:

Não se pode fazer nada sem a solidão (Pablo Picasso).





É. Nada.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

mas tchê

mas... tchê!

sábado, 8 de dezembro de 2007

velhas virgens

me senti uma azeitona triturada na sua boca.




(ê sabedoria.)
Mas já disse que sonhos e fantasmas estão muito longe de exprimir sempre o desejo escondido de um ato real, muitas vezes eles se bastam, são a realização acabada de um desejo que só reclama satisfação imaginária.

Falou aquela menina que já desde os 9 anos era sisuda, impostada como a saia amarrotada da professora.
Os coleguinhas, que só não eram mais tirânicos por causa das espinhas, comentavam: tinha que ser a Beauvoir.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

finaldesemestreenãodátemposequerderespir ar.

domingo, 25 de novembro de 2007

one mato péia.

Inventei uma onomatopéia. Saiu. Num tom bem exclamatório de um comentário espantoso que uma amiga fez dia desses. Quando respondi com aquele som estranho, ela se matou rindo e fez aquela cara de “hã-hã”.
Gostei.
Desde então, quando estou sozinha, fico repetindo minha onomatopéiazinha, bem assim, balbuciada, como se a boca pudesse ter outros ecos que a deixassem ainda mais bonita.

Sabe, onomatopéias não são facinhas. Tento mostrar a minha para os outros, mas ela não sai. Fica escondida, esperando o tom sarcástico certo, algum comentário que a cative.
Dia desses, saiu. Achei que precisaria de uns drinks, de umas duas três heinekens para deixá-la mais faceirinha, mas não. Foi na rua mesmo, enquanto caminhava comendo sorvete de limão.
Isso. Limão. Onomatopéias podem gostar de sorvete, ainda mais se for de limão. Talvez a companhia? O comentário nem foi tão tão assim... era digno, no máximo, de um Hmmmm esticado e daquele olhar de “tô sacando”. Mas não. Ali estava ela, toda arreganhada, provocando “hã-hãs” no mancebo que me acompanhava.

Onomatopéiazinha minha. Por que me deixa à mercê da sagacidade alheia?
Queria “hã-hãs” condescendentes pra mim mesma.



Balbuciar às vezes não é o suficiente.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Meninas dançam freneticamente cada suspiro
Saias giram em círculos concêntricos de pó e ar.
Riem na praça as cortesãs do futuro,
entre o sempre-nunca escondido nos vãos do concreto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

careta

Andar sem óculos escuros na Santa Maria-do-sol-escaldante tem suas vantagens. Uma dela é poder encarar criancinhas felizes que cambaleiam pelas ruas.


Sabe aquelas, na margem dos três anos, balbuciantes, tentando se equilibrar em sapatinhos apertados? São minhas favoritas.

Quando as encontro, faço uma cara bem de desenho animado e fico na espera de alguma reação.


Algumas imitam minha cara de Mutley, algumas agarram forte a camisa já amassada da mãe e outras me desdenham, empinando seus ainda indefinidos narizotes.


Me divertia à beça(hoia) quando resolvi hoje encarar a menina loirinha que vinha no colo da mãe. Ela me olhou sem cerimônia, fez uma vistoria milimétrica no meu pescoço e quase agarrou meu colar de miçangas coloridas. Ri. Rimos.

Fico pensando, qual será a fase da vida em que a criança passa a te olhar de outra forma?
Seria tão mais feliz se as pessoas pudessem se encarar sem cerimônia, sem que um olhar prolongado fosse sinônimo de vontade sexual, mas sim de aflição para quase arrancar do pescoço um colar bonito de miçangas, ou botões, ou sorrisos. Ou qualquer outra coisa feliz.




o problema é sempre A outra coisa.

domingo, 18 de novembro de 2007

Será que algo existe se só existe na minha mente, digo, se penso algo mas fica pensado só pra mim? E então solto aquela gargalhada pra dentro como quem entendeu o que o outro disse e se sente feliz de ter um suspiro compartilhado, mesmo que o outro seja eu?


Real da solidão compartilhada pra dentro, quem sabe?
E agora, que já disse, é o teu real também?




Eu quero uma solidão só minha. Sozinha. Sonha.

domingo, 11 de novembro de 2007

O domingo arrastou os chinelos o dia todo pela casa, não me deixou abrir as cortinas e riu da minha sonolência fingida.


Queria só umas dez cerejas bem vermelhas, que me obrigassem a tragar o doce e rir enquanto lambo os dedos.


É isso aí, dizem. É isso que realmente vive enquanto você se deslumbra com poemas sujos, suspira pelos cotovelos e pensa que o mundo pulsa.



Nada que uma boa noite de sono não faça esquecer.

(e que chegue a segunda).

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Saldo

Dividi pipoca doce e lambi os dedos. Dormi sentada em uma poltrona bem macia, enquanto um francês aportuguesado dizia canções de ninar. Entendi porque todo mundo fala do capitão nascimento. Vi livros, livros, livros e comprei poucos. Doutores são menos do que seu currículo lattes. Currículo lattes é menos que uma boa conversa suspirosa. Chaleiras de vaquinha são legais. A sensação de estar em casa por estar com alguém é mais ainda. Quero aprender a fazer massa pan.Surfe dentro do ônibus distrai. Não adianta soprar em pessoas vazias, elas são feito balão, tu dá todo o teu ar e depois elas estouram assim, do nada, te deixando com a impressão de espaço desperdiçado. Haicais são divertidos. A Bienal devia estar linda. Academiquês acaba com a paciência do indivíduo. O que não se faz por um pedacinho de papel com um carimbo.

petit poá

Sabe, quando eu olhei aquela foto tive a sensação louca de que era ela que estava me olhando e que eu é que era a fotografia.




Dias poás e reencontros petit fazem desses ires-vires tão bacaninhas.


E ainda deu tempo de passar correndo pela feira do livro e comer algumas páginas com os olhos!

:)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

domingo, 28 de outubro de 2007

weary

Pus fogo num chumaço da minha franja no fogão, enquanto arquitetava um ângulo delicado para queimar as cerejas.


Fora o cheiro, nem uma pitada de dó. Ainda mais com a Madeleine me esperando na janela.



(ser uma chef tristonha tem suas vantagens, ainda mais quando o restaurante está vazio)



quinta-feira, 25 de outubro de 2007

quando eu crescer

quero ser tão auto-explicativa quanto o aurélio.






quarta-feira, 24 de outubro de 2007

dicionomante

Então, cansada de não-me-venhas, resolvi puxar o aurelião pro colo.
Num tom meio ritualístico, fechei bem os olhos, abri em uma daquelas 1838 páginas amareladas e olhei a primeira palavra que o dedão apontou.

nefelibata (De nefeli- + bata.) Adj. 2 g. e s. 2 g. 1. Que ou quem anda nas nuvens. 2. Diz-se de, ou literato alambicado que despreza os processos simples, fáceis.



Rá.

elementar, meu caro Uótson.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Chegada



Ahnn desculpa.Bati muito a porta? Ela sempre fecha sozinha, a teimosa. Sim, fiz uma boa viagem. Na verdade não, o retorno é sempre meio futurista demais, mas nada que desespere, faça querer fugir de casa, mudar de vida, essas coisas.

É, bastante tempo, mas faz bem, faz parte. Preciso dormir. Cadê minhas pantufas? Andou dormindo nelas.. hun? Sei. A parede não é o lugar mais confortável desse universo. Desse quarto, talvez. Tá. Tô zombando sim.

Sabe que, reparando agora, tu fica bem com esse pijaminha rosa? Tenho um parecido, só que não é tão choque. Imagina dormir e acordar assim, com esse teu rosa fosforescente? Tá, desculpa. Eu paro. Sei, sei, fico agitada antes de dormir, deve ser por causa do teto com essas intermináveis tirinhas de madeira que que fico tentando contar toda noite, toda noite sim, até tu me desconcentrar, sempre.

Eu desligo a luz , mas deixa eu tomar o chá antes. Cidreira, por que? É, tem gosto de mato, de solidão boa, quente.

Ah, nem vem ronronando assim. Não vou dividir esse pouquinho que resta de mim contigo. Deixa eu dormir, daí quem sabe tu vem sorrateiro e adormece nos meus pés? Não, isso não é uma sugestão, até porque não suportaria esse teu pijama, mesmo sendo só uma questão de cor. Ouquei. Boa noite. Gatos precisam de boas noites? Gatos só dormem. ouqueeeei. parei.



Fecho os olhos, com pensamento fixo na xícara do café. Aquela, amarelinha com bolas em tom de azul, que combina direitinho com a dele. Direitinho.

Alice

Na frente do espelho do elevador, sentia-se pequena.

De salto agulha na sandália de tiras finas como lâminas, era como se não fosse.
Aqueles sapatos carmim, pelos quais pagara tão caro,a faziam sentir como se estivesse em cima de um pedestal. Nada mais justo, pensava. Olhou para o espelho demoradamente. Era estranho como aquele pedestal de plástico a projetava e diminuía, fazendo dela uma estátua talhada por um velho artesão de talento reconhecido, mas já cego dos olhos e do espírito.


Para. Desvia. Quebra o espelho. Parte o teu rosto, vadia.

Estava exposta demais, si mesma demais. Aquela luz cega revelava todas as imperfeições que seu artesão teimava em esconder. Olhos mal delineados, de traços pretos sujos, inacabados, crassos. Cabelo empapado pelo suor do porvir. Boca saliente, irritante, efusiva. Rococó, um pouco barroca, nada abstrata. Nua. Surrealista.

Já não era possível. Era ela.

Pensou em chorar, quis deixar-se cegar pela luz. Quis descer.Fez de si gesso, argila, estátua que vira notícia porque chora. Ela não.

Imóvel, acompanhou pelo espelho a porta abrir-se atrás de si. Feito escultura, viu as luzes se apagarem e tudo tornar-se tão mais claro que já podia fingir ser admirada, como obra que só os idiotas idolatram, justamente por desconhecê-la.






quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Dos vazios.

e de repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa
morna e ingênua
que vai ficando no caminho.
que é escuro e frio mas também bonito
porque é iluminado

pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

domingo, 7 de outubro de 2007

Procura-se um dragão

para dividir apartamento. Na verdade, quarto. Na verdade, cama. Na verdade, a parte de baixo do colchão. Pode ser azul, desde que asseado. Pode não falar muito, desde que conte uma mentira doce por dia.

Divido internet, noites insones e cerejas. Permito princesas, mau-humor e lambidas.

Aos dragões mais preocupados: não é preciso trazer seus pertences. Já tenho uma ovelha negra de pelúcia, um móbile com penduricalhos azuis e quatro paredes brancas.

Interessados bater na janela do sexto andar. Aquela, com furinhos luminosos e olhos atentos, escondidos por entre os vãos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Nowhere Lau.

Cafés aguados, doces açucarados, chuva e vento norte pesando nos cabelos.
Minimiza, maximiza, fecha de vez, desiste. Não é dia de ser uma moça de família com idéias na cabeça. Não é dia de ser.
Mãns pensa goriã, só um textinhozinho ou dois. Patético. Fácil. Escadas. Café. Respira. Maximiza. Digita. Não pensa. Pensa. Esquece.

Gosto de cereja madura que, com um bocejo, tento em vão prender entre os dentes.

Ah, se sesse.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Era uma tarde chuvosa aquela na qual eu, decidida em render-me às súplicas do meu espírito mulherzinha, pus os pés no salão (supostamente de beleza) para fazer as unhas. Talvez os homens não saibam, mas arrumá-las é uma atividade muito monótona. Ou talvez saibam e, por isso, deixem esse ofício penoso a nós, tolas mulheres.
Contudo, naquela tarde, foi justamente o universo masculino que bagunçou o marasmo do ambiente: entre acetonas, lixas e esmaltes, duas mulheres de adiposa maturidade conversavam sobre os homens.
- Mulher, sá's que descobri como achar homem solteiro?
- Ahh é? Mas como?
- Vai no Nacional, no fim da tarde, e fica ali - perto da seção de congelados, entre os pães de queijo e os camarões - sabe?
- Ãã-hã.
- Pois é. Por essa hora, chove homem solteiro lá, pra buscar comida pronta depois do expediente.
- Hann. E tu, já catou alguma coisa?
- Não. Ou sim. Quer dizer, achei uma batata-frita ótima. Bem mais crocante, sabe?

De unhas carmim e riso contido, fui ao supermercado. Buscar batatas-fritas.